A curiosa história da Casa Modernista da Vila Mariana
Vizinhança | Descubra | 17 de jun.


Um dos orgulhos arquitetônicos dos paulistanos fica escondido feito um tesouro entre as árvores de um grande terreno, na Vila Mariana. Erguida entre 1927 e 1928, a Casa Modernista é tida como a primeira construção do tipo no Brasil, mas era, principalmente, a moradia de um importante arquiteto vanguardista que até hoje influencia os projetos no país.
Era 1923 quando o ucraniano Gregori Warchavchik (1896–1972) desembarcou no país para trabalhar na Companhia Construtora de Santos, onde ficou por três anos. Flertando com o modernismo em textos publicados em jornais internacionais e nacionais, o arquiteto pensou no projeto da Casa Modernista quando se casou com a paisagista Mina Klabin, herdeira industrial da elite paulistana, que ajudou a inserir o marido no círculo modernista e social da capital.
Influenciada pelo cubismo e de aparência estética nada convencional para a época, ainda permeada por neoclássicos, a Casa Modernista da rua Santa Cruz dividiu opiniões por conta da falta de rigor técnico aplicado ao projeto e por burlar normas vigentes da época, como a falta de elementos ornamentais na fachada. Dinheiro não era um problema na família, mas ele alegou "falta de recursos" para driblar as regras engessadas.

Como proprietário do imóvel, Warchavchik o criou a seu desejo pessoal e não apenas profissional, daí a defesa para a licença criativa do arquiteto, que não seguiu cartilhas à risca e, por isso, teve como resultado algo tão original a ponto de incomodar.
Um ponto complicado para a construção da casa era o acesso mais difícil às matérias-primas que fugiam do tradicional, fazendo com que, futuramente, o arquiteto montasse oficinas para fabricar janelas, portas e móveis modernistas.
Fato curioso é que a residência da família causou estranheza na população, passando a ser conhecida como "caixa d'água" e recebendo visitas aos domingos de quem queria ver de perto a novidade. Não muito distante dali, na rua Berta, Warchavchik planejou a casa do artista e cunhado Lasar Segall - hoje também um museu - com características semelhantes. Na rua Berta, logo em frente à instituição, está um conjunto de casas modernistas "populares" assinadas pelo arquiteto.

Morando no futuro
Independente das críticas contraditórias, as linhas retas da obra, que materializam os conceitos de praticidade, funcionalidade e racionalização, exprimem o que era o modernismo brasileiro em sua efervescência, culminando na Semana de Arte Moderna de 1922.
Ocupando um terreno de 13 mil m², a Casa Modernista tem como principais elementos o uso generoso de concreto, ferro, vidro e efeitos de transparência, geometria simples, e a integração de espaços internos e externos. É rodeada por um bosque que também se diferenciava das demais pela escolha de Mina Klabin por espécies botânicas tipicamente brasileiras, ousando mais uma vez.
"Construir uma casa, a mais cômoda e barata possível, eis o que deve preocupar o arquiteto construtor da nossa época de pequeno capitalismo, onde a questão de economia predomina sobre todas as mais. A beleza da fachada tem que resultar da funcionalidade do plano da disposição interior, como a forma da máquina é determinada pelo mecanismo que é a sua alma". – Gregori Warchavchik, em publicação do artigo “Acerca da Arquitetura Moderna”, no Correio da Manhã, em 1925
O pouco conhecido mobiliário da casa, que foi dividido entre familiares após a morte do arquiteto, era assinado por ele e outros modernistas. A decoração era de fazer inveja a qualquer mortal apaixonado por arte: quadros, esculturas e até almofadas carregavam a assinatura de nomes como Lasar Segall, Anita Malfatti, Victor Brecheret e John Graz.







Foi reformada em 1935, a medida em que a família cresceu, passando por adaptações. Em meados de 1970, eles se mudaram e, após mobilização popular, a casa foi tombada em 1984, após correr o risco de ceder à especulação imobiliária em busca de terrenos.
A partir de 2008 se transformou em espaço cultural e verde, quando passou a integrar os equipamentos da Prefeitura Municipal de São Paulo. Está aberta a visitação, com mostras temporárias ocupando seus espaços.
Impossível deixar de mencionar que, em 1930, o casal fez um evento para apresentar a Casa Modernista da Rua Itápolis, no Pacaembu, como um expoente da nova arquitetura, a moradia do futuro, sendo essa uma versão refinada do primeiro projeto.
Durante 21 dias, o público de 20 mil pessoas pode ver de perto os traços inovadores, junto ao mobiliário modernista - ou futurista, como gostava de pontuar o criador -, com peças assinadas por Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti.
Em breve: Museu da Casa Brasileira
A Casa deve passar a receber em 2025 o acervo do Museu da Casa Brasileira, sem sede desde 2023. O novo lar do MCB passará por um projeto de restauração que deve levar cerca de 24 meses até ser inaugurado oficialmente, mas não há um prazo para a abertura. A reforma é estimada em R$ 25 milhões.
Na data que este texto foi escrito as obras ainda não haviam se iniciado, mas torcemos para que comecem em breve :)
Visite a Casa Modernista
Rua Santa Cruz, 325, Vila Mariana – São Paulo – SP
Horário: Terça a domingo | das 09h às 17h
Sem necessidade de agendamento para visitas espontâneas.
Agendamento de grupos: educativomuseudacidade@gmail.com
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