Panamá Casa: Um Gabinete de Curiosidades
Vizinhança | Descubra | 29 de ago.

Há quem colecione pedras, insetos, selos ou moedas. Há também quem jamais se apresente como colecionador, mas preserve a poltrona herdada dos avós, traga um cinzeiro na mala de viagem ou passe anos procurando, em antiquários, aquela peça que parece familiar mesmo antes de chegar em casa. Talvez a diferença entre guardar e colecionar esteja no tempo que dedicamos ao olhar.
Colecionar é escolher, aproximar e atribuir valor. É retirar um objeto do fluxo comum das coisas e conceder a ele uma posição particular. Quando uma coleção é exposta dentro de casa, passa também a dizer algo sobre quem a reuniu. Mais do que organizar uma parte do mundo, ela edita uma versão muito pessoal dele.

Na Europa dos séculos XVI e XVII, essa vontade de reunir e exibir encontrou sua forma mais conhecida nas Kunst- und Wunderkammern, as câmaras de arte e maravilhas que hoje chamamos de gabinetes de curiosidades. Segundo o Metropolitan Museum of Art, esses espaços aproximavam objetos encontrados na natureza, criações humanas e instrumentos científicos. Conchas, minerais, animais preservados, pinturas, esculturas, relógios e peças trazidas de lugares distantes conviviam em uma tentativa ambiciosa de fazer o mundo caber dentro de uma sala.
Eram espaços de conhecimento, mas também de poder e representação. A coleção revelava a extensão dos interesses, das viagens, das posses e das relações de seu proprietário. O que produzia o encantamento não era apenas a raridade de cada peça, mas o efeito de coisas aparentemente dessemelhantes reunidas em um mesmo lugar. Antes da classificação precisa dos museus modernos, havia o prazer da associação, da surpresa e do espanto.

Séculos depois, os objetos continuam participando da maneira como construímos e apresentamos nossa identidade. Em 1988, o pesquisador Russell Belk chamou essa relação de “eu estendido”: nossos pertences não apenas refletem quem somos, mas ajudam a constituir essa imagem. Alguns anos antes, Mihaly Csikszentmihalyi e Eugene Rochberg-Halton haviam investigado, em The Meaning of Things, como as pessoas produzem significado por meio dos objetos e do ambiente doméstico.
Talvez seja por isso que uma cadeira herdada nunca seja apenas uma cadeira. Ela traz consigo uma casa anterior, uma forma de sentar, uma pessoa, uma lembrança. Da mesma maneira, a peça encontrada em um antiquário já chega com marcas de uma existência que desconhecemos. O antropólogo Igor Kopytoff propôs pensar os objetos como portadores de uma biografia cultural, capaz de mudar conforme eles circulam entre diferentes mãos, usos e contextos. Algumas coisas são compradas, usadas, esquecidas, herdadas, reencontradas e novamente desejadas. A cada passagem, acumulam uma nova camada de sentido.
É dessa família distante que parece fazer parte a Panamá Casa.

A loja nasceu no endereço que antes servia de escritório a Marcel Steiner, designer de interiores, fundador do Estúdio Panamá e amigo da Frankie. Antes dele, o imóvel da Rua Barão do Bananal abrigou o tradicional Açougue da Pompeia, que funcionou ali desde a década de 1940 até a pandemia. Parte dessa história continua visível no piso geométrico, nos azulejos das paredes e nos diferentes níveis do salão. Em vez de apagar os usos anteriores, Marcel permitiu que eles permanecessem como a primeira coleção do lugar.
Do lado de fora, a fachada estreita, a porta verde e os ramos que avançam sobre a entrada oferecem poucas pistas do que há lá dentro. Depois da porta, o teto cor de ferrugem, as paredes azulejadas e a luz baixa envolvem uma composição que se parece menos com uma loja convencional e mais com uma casa intensamente habitada.
Nada está disposto de maneira óbvia. Não há uma sucessão pedagógica de produtos, nem muito espaço em branco para separar uma categoria da outra. O olhar precisa percorrer o ambiente, parar, voltar e aprender seu ritmo. Primeiro se percebe o conjunto. Depois, aos poucos, cada objeto começa a se desprender dos demais.

Há cinzeiros, bandejas, caixas, louças, bules, vasos e livros. Espelhos de diferentes tamanhos dividem as paredes com gravuras, uma raposa emoldurada, ilustrações de pássaros e obras de Tide Hellmeister, artista gráfico e plástico que fez da colagem sua principal linguagem. Cadeiras de fibra e bambu aparecem ao lado de poltronas estofadas, cestos, abajures, almofadas, barquinhos, peixes, guarda-chuvas e pequenas peças de tipografia.
Em um canto, uma figura de porcelana azul e branca segura os cartões da loja. Próximo a ela, um flamingo, uma embarcação em miniatura e uma luminária acesa formam uma pequena cena cuja lógica não precisa ser inteiramente decifrada. Mais adiante, uma cabeça de girafa feita de fibra observa potes, garrafas, folhas secas e um grupo de pequenas esculturas. Tudo está à venda, mas nada parece ter sido colocado ali apenas para ser vendido.
Essa ambiguidade é parte do encanto. Como em uma casa, os objetos formam relações antes de formarem categorias. Uma cadeira conversa com um livro, uma estampa encontra uma cerâmica, uma almofada muda a leitura de um sofá. Garimpar a Panamá exige certa disponibilidade. É menos uma compra imediata do que um modo de ler o espaço.

A seleção acompanha o olhar muito pessoal de Marcel, construído ao longo dos anos como designer e caçador de objetos. Recentemente, em uma revista, ele resumiu seu critério como aquilo de que gosta e que não está na moda, acrescentando uma confissão bastante esclarecedora: “Adoro coisas esquisitas.”
Há refinamento nessa escolha, mas não uma busca pelo objeto impecável ou consensualmente bonito. Interessa o que tem caráter, humor, estranheza ou uma presença difícil de explicar. Uma peça pode chamar atenção pela forma, outra pela pátina, pelo material, pela origem ou simplesmente pela improbabilidade de estar ao lado de todas as outras.
Entre uma descoberta e outra, são as texturas que dão coesão ao conjunto. Bambu, palha, madeira, cerâmica, metal e vidro aparecem atravessados por tecidos estampados e superfícies táteis. Parte desse repertório vem da parceria com a Donatelli Tecidos. O diálogo entre as duas marcas também chegou à coleção Goa, na qual paisleys, listras, chevrons, jacquards e cores inspiradas em especiarias receberam a leitura da Panamá Casa.

Os tecidos não funcionam apenas como revestimento. Eles aproximam peças de épocas e procedências distintas, acrescentam profundidade às composições e deixam a abundância mais doméstica. São eles que ajudam uma poltrona antiga a encontrar lugar ao lado de um sofá, de uma cestaria ou de uma luminária que poderia ter vindo de outra década e de outro continente.
Em meio a tudo isso, encontramos um exemplar de Massimo Listri. Cabinet of Curiosities, publicado pela Taschen. No livro, o fotógrafo italiano percorre antigos gabinetes europeus, registrando salas em que obras de arte, espécimes naturais, autômatos, instrumentos e objetos raros foram reunidos para representar um universo inteiro.
A presença do volume na Panamá parece mais do que uma coincidência. É como encontrar um gabinete de curiosidades dentro de outro. De certa maneira, ele resume tanto o espaço quanto seu proprietário. Marcel possui um olhar refinado para o que é belo, mas especialmente atento ao que é singular, inesperado ou um pouco deslocado. Um olhar capaz de reconhecer relações antes que elas se tornem evidentes para os demais.

A Panamá Casa é uma coleção colocada em circulação, uma loja com a intimidade de uma casa e um autorretrato construído com objetos. Para quem, como nós, tem na curiosidade e no colecionismo um ponto fraco, o espaço produz um tipo particular de desejo. Não apenas o de levar alguma coisa, mas o de continuar olhando.
Talvez se saia dali com um cinzeiro, um livro, uma cadeira ou uma almofada. Talvez com algo mais difícil de embrulhar: a vontade de voltar para casa e olhar novamente para os objetos que já vivem conosco.
Panamá Casa | Rua Barão do Bananal, 674, Pompeia, São Paulo
Siga a @panama.casa.loja no Instagram
Fotos: Leandro Furini
vizinhança | descubra


